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Artigo publicado no Jornal Alto Alentejo

«Foi este Colégio que proporcionou outra ambição e abriu novos horizontes aos filhos do homens pobres» (Joviano Vitorino)



Homenagem ao Pe. José Agostinho

nos 50 anos do Colégio de Alter



Um jornada de encontro e de comemoração reuniu em Alter mais de 330 pessoas no cinquentenário do Colégio – Externato Diogo Mendes de Vasconcelos – e na homenagem ao seu fundador, Pe. Dr. José Agostinho Rodrigues, que veio para Pároco da terra em 1944 e faleceu em 1971.



De todo o lado veio gente propositadamente – e até de França e da América - para marcar presença no sábado, 4 de Outubro, na comemoração do cinquentenário do Colégio de Alter que serviu gerações de alunos de todo o concelho de Alter e do de Crato, mas também de Cabeço de Vide, de Vaiamonte, de Benavila, de Valongo, de Vale de Açor, de Tolosa e de Alpalhão.

A organização começou a trabalhar há muito, liderada por Maria João Baltazar, e neste dia grande houve abraços e lágrimas pela felicidade do reencontro entre “jovens” nascidos nos anos 50, 60 e 70 por estas terras em que muitos não se reencontravam há décadas.

Toda a família do fundador, nascido em 1917 em Orvalho – Oleiros, antigos professores e funcionários participaram neste grande encontro. Mais conhecidos em Alter, porque aqui viveram, a D. Ricardina (irmã do fundador) e os seus filhos Inês, Maria Alzira e Abel, bem como a sobrinha Maria Goretti.

Pelas 10h e depois da credenciação no Palácio do Álamo foi celebrada missa de Acção de Graças na Matriz, acompanhada pelo Coral Polifónico de Alter, presidida pelo Cón. Manuel Marques Pires, Chanceler da Diocese e antigo professor do Colégio, e concelebrada pelo Pe. João Pires Coelho, também ex-docente do Colégio e ex-Pároco de Alter, bem como pelo actual Pároco, Pe. Paulo Henriques.

No decorrer da Eucaristia foram lembrados todos os fundadores, os directores, nomeadamente o Pe José Agostinho e a Dra. Fernanda Carrilho Velez, professores, funcionários e alunos já falecidos.

Na saída na Missa a Banda Municipal Alterense a todos saudou e seguiu-se a romagem a pé ao cemitério onde Adelino Rodrigues, sobrinho do Pe. José Agostinho, proferiu uma alocução sobre a vida deste homem que «amou a Deus na doação total aos homens», como reza o epitáfio no túmulo erguido pelas gentes de Alter. Ali foi descerrada uma lápide comemorativa desta homenagem, seguindo-se a visita ao antigo Colégio, hoje recuperado e com as instalações ao serviço da formação de homens novos, através do Desafio Jovem, entidade cuja missão enobrece aquele espaço de memória e de ensino.

Alis usou da palavra um representante da instituição, Carlos Décio, e em nome da família do Pe. José Agostinho, a sobrinha Alzira Serrasqueiro, também ela ex-aluna deste Colégio e actual governadora Civil de Castelo Branco, que com o presidente da Câmara, Joviano Martins, descerrou a lápide evocativa do cinquentenário e simultaneamente uma placa do Desafio Jovem associando-se a esta efeméride.

Aqui houve visita às instalações e fez-se a sempre difícil fotografia de grupo para mais tarde recordar.

Seguiu-se, no Castelo, a breve apresentação, pelo Grupo de Teatro “O Cidral” do episódio histórico “Os Doze Melhores de Alter”, antecedida de palavras de boas-vindas dirigidas pela vereadora Mafalda Sadio que realçou o «património de afectos e de emoções» que todos ali juntou, posto o que se procedeu à inauguração de uma exposição evocativa sobre o Colégio que estará patente no Castelo até Janeiro.    

Deu-se então início ao lauto almoço-convívio servido no Pavilhão Gimnodesportivo que teve muito de almoço e muito de convívio. Em cada lugar um opúsculo da autoria de António Manuel Brazão Ferreira sobre a história do Colégio que funcionou entre 1968 e 1985 e uma miniatura da fachada do Colégio.

Em dado momento a simpática entrada do Grupo Abelterium, seguindo-se um breve espaço de discursos a cargo da presidente da Comissão Organizadora, Maria João Baltazar, e do presidente da Câmara, Joviano Vitorino.

Houve lugar depois à deliciosa exibição de um filme recuperado do espólio do Pe. Serras, “contando” a história do Colégio e também muito da vivência dos desfiles de Carnaval e de outros aspectos como as procissões, não só em Alter mas também em Cabeço de Vide..

Chegou, já noite, o momento de partir o bolo e de uma homenagem a Maria Angélica Macedo, obreira de muitas obras em Alter e um dos pilares que ajudou a  erguer o Colégio, e às “Meninas” Antónia Cesteiro e Teresa Palhas, funcionárias da instituição.

Este foi um dia intenso e muito emocionante para quem o partilhou, vivendo momentos que fazem parte da história individual mas também do espírito colectivo que dá unidade às comunidades.

De destacar, como foi amplamente referido por inúmeros participantes, a extraordinária organização que pôs de pé esta celebração de grande dignidade, tendo havido mesmo um agradecimento público à Comissão Organizadora da pessoa de Maria João Baltazar.




O testemunho da palavra


Na sua homilia, o Cón. Manuel Pires lembrou que «hoje é dia de S. Francisco de Assis… que soube melhor que ninguém contemplar todas as maravilhas». Tal como S. Francisco, «é preciso olhar, contemplar…». Salientando a «presença de S. Francisco neste Alentejo através dos conventos da Ordem Terceira», o sacerdote lembra «a luz que há 50 anos surgiu nesta localidade», a muitas «vidas que por aqui passaram», o que «alguém mais tarde quis apagar mas que continua vivo» porque «o bem nunca se apaga».

Este antigo professor do Colégio realçou a ainda a grande «acção formadora», a «generosidade dos accionistas» e «o sacrifício de tantos para que esta obra surgisse», «uma obra que tantos puderam e souberam aproveitar» através «do valor do conhecimento e da ciência».

«É esta acção de vida e de gratidão que perpassa hoje nos nossos corações», sublinhou o Com. Manuel Pires que lembra que «a obra foi do espírito cristão dos seus fundadores… e foi também do esforço da diocese», por isso «o nosso agradecimento a todos quantos fizeram o que fizeram… a nossa gratidão a todos quantos conseguem descobrir, a olhar para o céu, esta maravilha com o espírito de S. Francisco». Ficou ainda um apelo para que «surjam novas iniciativas» que «no espírito cristão possam dar continuidade a esta luz e á obra deste Colégio», e «podia ser algo muito simples».



Perante o mausoléu do Pe. José Agostinho, o sobrinho Adelino Rodrigues historiou um pouco a vida do tio. Em nome da família agradeceu a todos os que «ao longo destes 37 anos subsequentes à sua morte procuraram honrar a sua memória, quer dando individualmente testemunho de vida, quer através dos seus orgãos de representação Autárquica e Poder Local», mas também a muitos outros « a família do Padre José Agostinho sente-se devedora daqueles que durante estes anos prestaram à sua memória as honras de que o achavam merecedor e agradece-lhes reconhecida». «A vossa presença em tão grande número nesta romagem, volvidos que são mais de 37 anos da sua morte, constitui por si só uma homenagem suficientemente elucidativa do reconhecimento que cada um e todos têm relativamente à obra e pessoa do Padre José Agostinho, dispensando porventura esta alocução» mas «sei que ele, lá onde está, não me perdoaria a fraqueza da acomodação, nem a cobardia da desistência, não por que requeresse para si louvaminhas ou honrarias que em vida não buscou ou chamou a si, mas porque não lhe estava na natureza aceitar falhanços, negligências ou faltas de rigor e exigência. Seria aliás uma injustiça relativamente a quem, em vida, nunca se poupou a esforços, estipêndios ou sacrifícios em favor de necessitados, injustiçados e da própria família.

Não estando feita a sua biografia, está por apurar em que itinerancia, encruzilhada ou empreendimento ele deixou mais a pele, desconhecendo-se assim, se ao serviço de Deus, como sacerdote, se ao serviço dos homens, como político, o que aliás não se afigura fácil, dada a simultaneidade e variedade de acções  em que habitualmente estava envolvido. 

Aqueles que com ele privaram sabem bem como preces, estudo, discussões, ensino,  aprendizagem, sacramentos, ofícios religiosos,  retiros  e viagens se ligavam num périplo  indissociável onde só não havia lugar para o descanso dele, o queixume, o remordimento ou a frustração».

«Os que com ele privaram são unânimes em reconhecer-lhe a enorme satisfação da sua consagração como Sacerdote, a qual lhe permitiria, segundo aspirava, a uma maior liberdade e autonomia na ajuda do próximo, na resolução dos problemas dos desprotegidos da fortuna e defesa dos carentes de Justiça, numa sociedade toda ela cristalizada em enorme atraso intelectual e social, campo farto de desigualdades mas também de oportunidades para as suas iniciativas».

«Mobilizando e incentivando a iniciativa de mecenas, instituições e particulares e ultrapassando múltiplos obstáculos,  foi assim que levou a cabo a ultimação da Igreja Matriz, promoveu a construção de casas para os pobres, construiu e pôs a funcionar em condições de excelência o Externato Diogo Mendes de Vasconcelos, em simultâneo com o serviço da Paróquia de Alter, de várias outras em redor e acções religiosas por esse Mundo fora.

Homem de certezas que lhe iluminavam a vida foi obrigado a sobreviver sem soçobrar em ambiente de relativismos, na procura duma verdade que sempre acreditou existir».

«Por anacrónico que possa parecer, a vida do Padre José Agostinho era uma Filosofia, a sua Filosofia de vida.

Em substância, era de facto mais que isso. Seria antes um sacerdócio e uma profissão de Fé permanentes com Deus e no Homem».

Morreu como viveu, daquela forma brutal naquele fatídico 26 de Março de 1971, atirado para fora da estrada em capotanços sucessivos, procurando ultrapassar o seu tempo mais do que a velocidade do carro lhe permitia!»

Adelino Rodrigues, a concluir lembra que «ao longo de anos o vi, relativamente a este ou aquela, senão a todos, colocar a fasquia muito alta, quase sempre alta demais, nunca conseguindo conviver facilmente nem conformar-se com a evidência das incapacidades de muitos para a suplantarem.

Por este motivo nunca lhe viriam a faltar motivos para reprimendas, ainda que caldeados com incentivos e encorajamentos pessoais.

Por isto mesmo, pelas asas que vos deu e pela ajuda em libertar-vos dos atavismos em que nascestes, aqui estais, apesar do muito tempo que passou e de sabermos quão curta é a memória dos homens».



Maria Alzira Serrasqueiro, sobrinha do Pe. José Agostinho e antiga aluna do Colégio, na cerimónia de descerramento da lápide que fica a assinalar a comemoração do cinquentenário do edifício lembrou que «são 50 anos de memórias de cada um de nós» que «aqui iniciámos a nossa formação, aqui demos os primeiros passos como pessoas, aqui tivemos os primeiros amores, enfim, aqui começou um caminho que levou cada um de nós àquilo que é hoje».

A governadora Civil de Castelo Branco lembra que «falo-vos, como me foi pedido, como antiga aluna deste colégio, mas não vou conseguir despir-me da minha condição de sobrinha e herdeira espiritual do seu principal fundador, o Padre José Agostinho Rodrigues.

Era um homem dotado de forte personalidade com muitas das características que ainda hoje se apontam aos Beirões, que não deixava indiferentes todos aqueles que com ele se cruzavam.

Todos os ex-alunos que hoje aqui estão e que o conheceram, sabem do que falo: quando o Padre Zé Agostinho estava no colégio, quem se atrevia a falar nas salas de estudo? Quem se atrevia a portar-se pior nas aulas com medo do Padre Zé? Eu ainda tenho marcadas as reguadas que levei dele. Quantas vezes sem nada ter feito, mas por uma questão de exemplo na minha turma…se um colega meu falava, levava duas reguadas e a sobrinha levava quatro para exemplo de todos; quando em casa refilava (porque sempre fui muito parecida com ele) por ter apanhado sem nada fazer, ouvia como resposta que eu tinha que dar o exemplo…Que belos tempos, tenho hoje muitas saudades até das reguadas».

Maria Alzira lembra que o «assinalável espírito de iniciativa» do tio «aliado a um enorme inconformismo com a pobreza e a pouca cultura então reinante no interior do país levou-o a construir uma obra de que assinalo a reconstrução da Igreja Matriz, a ajuda na criação da cantina para os alunos das escolas primárias, a construção de casas para pobres, em colaboração com a Conferência de São Vicente Paulo entre outras.

Mas é com a construção do Colégio que hoje aqui revivemos que se levanta a maior peça da sua intensa embora curta vida.

Lutando com carências de toda a índole, contando apenas com boas vontades e com o voluntariado de poucos, empreendeu a construção do Externato, onde, a partir de 1958, muitos jovens deste concelho e de concelhos limítrofes puderam iniciar e prosseguir os seus estudos e ascender a qualificações educativas e profissionais mais elevadas.

Embora se tratasse de um estabelecimento de ensino privado, nunca ninguém deixou de frequentar as suas aulas por carências económicas dos seus agregados familiares; foram muitos os alunos que aqui concluíram o então 5º ano liceal de forma gratuita, sem que os restantes colegas o soubessem. Praticou-se aqui com muitos anos de antecedência uma verdadeira igualdade de oportunidades que agora todos reclamamos»

«Este era verdadeiramente o Padre José Agostinho, que nos impunha enorme respeito, que nos fazia andar fardados a rigor, que nos obrigava a rezar, a estudar mas que nutria por cada um de nós um enorme carinho, ainda que nem sempre o exteriorizasse».

Maria Alzira Serrasqueiro terminou a agradecer «a todos os elementos desta Comissão Organizadora que com muitas horas de trabalho voluntário e com prejuízo das suas vidas pessoais e profissionais quiseram assinalar esta efeméride, permitindo-nos este feliz reencontro com o nosso passado».



Maria João Baltazar, presidente da Comissão Organizadora das comemorações, dirigiu-se a meio da tarde a todos salientando que esta é «uma comemoração singular, e alguns dirão mesmo tardia, visto que o Colégio como tal já não existe hoje», mas aqui não se comemora «apenas o passado e a memória destes 50 anos», e aponta que se deve «extrair lições para o presente e o futuro»  de Alter.

Para que não haja especulações, «a finalidade foi só uma: encontrarmo-nos». Não se comemoram pois «pedras ou tijolos mortos, não incensamos memórias pessoais… comemoramos a amizade, porque nós somos, ainda hoje, onde quer que estejamos, as pedras vivas do Colégio que um dia frequentámos».

«Um dia todos nós, uns atrás dos outros, como ondas, não do mar, mas das gerações, aqui nos encontrámos e cruzámos as nossas vidas». E «é bom reviver esses momentos de são convívio, de camaradagem, de aprendizagem conjunta, de namoricos e de iniciação à vida». Para «muitos outros que teriam vindo se ainda estivessem connosco, para esses companheiros de jornada que já não estão entre nós vão o preito sentido da nossa homenagem».

«O Colégio representou muito na vida de cada um de nós», não só de Alter «mas também das terras vizinhas, ele pôde ter sido para alguns a única possibilidade de prosseguir os estudos; mas para todos é o ícone do tempo da juventude que passou, dos sonhos de uma vida… ». Por isso o Colégio continua a ser o eleo de ligação entre tantos e «por isso ficamos também contentes que o Colégio físico… depois de anos de vergonhosos abandono tenha reencontrado um rumo que continua passar por dar sentido às pessoas, por reabrir novos horizontes aos jovens».

Maria João Baltazar lembrou que todos foram convidados a participar e realçou o papel do Bispo D. Agostinho de Moura no movimento geral da Diocese em prol da educação e que o Pe. José Agostinho protagonizou em Alter. «Oxalá houvera hoje empenho semelhante nestas terras em que o “deserto” cresce»., mas «o deserto não crescerá sem a nossa luta e oposição». A mesma responsável associa ainda um certo declínio dos últimos 30 anos no concelho ao encerramento do Colégio, e deixa o desafio: «Alter, ousa ser de novo exigente contigo própria»

A concluir agradeceu o empenho de todos quantos se mobilizaram de diversas formas para colaborar nesta comemoração.



O presidente da Câmara de Alter agradeceu a todos a visita e lembrou a importância do Colégio «para aprendizagem pedagógica, cultural e cívica de todos aqueles que por cá passaram». «Falar do Externato Diogo Mendes de Vasconcelos é falar de homens e mulheres com vontade de bem fazer», sublinha o presidente da Câmara de Alter que lembra que «eram outros tempos, porventura bem mais difíceis, não existiam subsídios, era tudo arrancado à vontade de fazer, de construir.»

«Num Alentejo onde os filhos tinham assegurado, por norma, uma pofissão que já fora dos seus avós e que o pai também segura, é preciso que alguém sonhe, que alguém tenha a coragem de inverter, de transformar, de modificar a modorna que durante tempo demais assolou o nosso Alentejo».

Por isso o Colégio «tem um rosto que dava pelo nome de José Agostinho Rodrigues. Foi este homem que não se resignando ao quotidiano da época teve a ousadia de sonhar, construiu uma equipa e de concretizar a obra. «Foi este Colégio que proporcionou outra ambição e abriu novos horizontes aos filhos do homens pobres».

Foi pois uma época de mudança, até de mentalidades, pois «os pais viam a oportunidade de dar um futuro aos seus filhos» e «é hoje aqui, que todos em conjunto podemos revisitar essas memórias, …essa infinidade de saborosas recordações.

E ficou o agradecimento à Comissão e o convite a todos para revisitar Alter.